Baixo cifrado, e os números que descrevem o que soa acima do baixo
A notação barroca de acordes, números sob a linha do baixo indicando os intervalos a tocar acima dela, e por que ela não é a mesma coisa que a análise por graus.
No Barroco, o cravista ou o alaudista não recebia os acordes escritos: recebia a linha do baixo, com números embaixo, e realizava a harmonia na hora. Esses números são o baixo cifrado, a primeira notação abreviada de acordes, e ela sobrevive nas aulas de harmonia porque descreve algo que a cifra moderna não descreve: os intervalos acima do baixo.
O que os números dizem
Cada número é um intervalo contado a partir da nota do baixo, para cima, em graus da escala. Um 6 diz "toque uma sexta acima do baixo"; um 4, uma quarta. As notas exatas seguem a armadura, e um acidente ao lado do número altera a nota correspondente.
Um mi no baixo com 6 embaixo: sexta acima de mi é dó, terça acima é sol, e o acorde é dó maior na primeira inversão, com as notas sol e dó sobre o mi.
As figuras que se abreviam
Escrever todos os intervalos seria cansativo, e a tradição abrevia pelas figuras mais comuns:
- Nada, ou 5/3 — estado fundamental: terça e quinta acima do baixo.
- 6, ou 6/3 — primeira inversão: terça e sexta acima do baixo.
- 6/4 — segunda inversão: quarta e sexta acima do baixo.
- 7 — tétrade em estado fundamental.
- 6/5 — tétrade em primeira inversão.
- 4/3 — tétrade em segunda inversão.
- 4/2, ou 2 — tétrade em terceira inversão, com a sétima no baixo.
Os mesmos acordes, dó maior nas três posições, que a cifra moderna escreve , e , e que o baixo cifrado escreve como nada, 6 e 6/4 sob as notas dó, mi e sol do baixo.
Acidentes
Um sustenido, bemol ou bequadro sozinho sob o baixo altera a terça acima dele; ao lado de um número, altera a nota daquele número. Um traço cortando um número é a abreviação de "elevado". Assim, um sol no baixo com um sustenido embaixo é sol com si natural... ou com si sustenido, conforme a armadura; a leitura é sempre relativa à tonalidade.
Em dó maior, essa sequência em baixo cifrado seria ré com 7, sol com 7, dó sem nada: as sétimas indicadas, os acordes deduzidos da escala.
Não é análise por graus
Aqui está o ponto que separa quem entendeu. O baixo cifrado descreve intervalos acima do baixo; a análise por algarismos romanos descreve a função do acorde na tonalidade. Um 6 sob um mi diz que há uma sexta acima dele, não que o acorde é o I na primeira inversão; para saber isso é preciso saber a tonalidade. As duas notações se combinam, e a análise clássica escreve o algarismo romano com a figura do baixo cifrado ao lado: I6 para a tônica na primeira inversão, V6/5 para a dominante com sétima na primeira inversão.
Para que serve hoje
Para tocar o repertório barroco a partir do original, que é como ele foi escrito. Para ler análises clássicas, que herdaram os números. E para um exercício que continua excelente: realizar um baixo cifrado a quatro vozes é aprender condução de vozes com um enunciado exato, porque os números dizem que notas usar e a condução decide como.
O que levar daqui
O baixo cifrado escreve a harmonia como intervalos sobre o baixo, em números que a tradição abreviou: nada para o estado fundamental, 6 para a primeira inversão, 6/4 para a segunda, 7, 6/5, 4/3 e 4/2 para as tétrades. Ele não diz a função; a análise por graus diz, e as duas juntas são a notação da harmonia clássica. Os números das inversões que todo mundo usa nasceram aqui.