A harmonia do choro, e a gramática tonal levada ao limite
Dominantes encadeadas, diminutos de passagem, o baixo em movimento e a modulação entre seções; o repertório brasileiro em que a harmonia funcional do século dezenove sobreviveu mais intacta, e por que decorar a forma vale mais que decorar os acordes.
O choro é a harmonia funcional do século dezenove tocada por gente que não parou de tocá-la. Dominantes secundárias em fila, diminutos ligando graus vizinhos, o baixo caminhando o tempo todo, modulação para o tom vizinho a cada seção: tudo o que os manuais de harmonia clássica descrevem está lá, em andamento rápido, numa forma fixa. Esta página lê esse repertório.
As dominantes encadeadas
A frase de choro raramente vai de um grau ao outro sem preparar. Cada acorde de chegada recebe a sua dominante, e as dominantes se encadeiam por quintas até a tônica.
A segunda é a cadeia pura: lá, ré, sol, dó, cada acorde dominante do seguinte. É o esqueleto de incontáveis primeiras partes, e o baixo desce por quintas o tempo inteiro.
O diminuto de passagem
Entre dois graus a um tom de distância, o choro põe o diminuto na nota do meio e liga os dois por semitons. É a marca de fábrica do acompanhamento, e é uma dominante secundária sem fundamental.
Na segunda, o diminuto sobre a mesma fundamental do acorde anterior: ré menor vira ré diminuto e resolve em dó maior na primeira inversão. É o diminuto "de cima", que desce em vez de subir, e o baixo ré, ré, mi caminha por grau.
O baixo que nunca para
O violão de sete cordas, que o choro inventou para isso, faz o baixo andar: por quintas nas cadeias de dominantes, por semitons nos diminutos, por graus conjuntos nas inversões. Uma cifra de choro lida com atenção às barras é uma linha de baixo, e a harmonia é o que essa linha atravessa.
Dó, mi, fá, fá sustenido, sol, sol, dó: o baixo de uma cadência de choro, com a inversão de dó, o quarto grau, o diminuto de passagem e a dominante.
A modulação entre seções
O choro clássico tem três partes, A, B e C, na forma rondó A B A C A, e cada parte costuma modular para um tom vizinho e voltar: a segunda para a relativa ou a dominante, a terceira para a subdominante ou o homônimo. A modulação é confirmada por cadência no tom novo, e a volta ao A é sempre no tom original.
Aqui a primeira parte em dó e o começo da segunda em lá menor, a relativa, com a dominante dela, mi com sétima, confirmando o centro novo. Decorar a forma, A em dó, B na relativa, C na subdominante, vale mais que decorar os acordes: com a forma e o vocabulário, os acordes se deduzem.
O que levar daqui
A harmonia do choro é a funcional levada ao limite: toda chegada preparada por dominante, dominantes em cadeia por quintas, diminutos de passagem ligando graus vizinhos, um baixo que anda o tempo todo, e modulação para o tom vizinho a cada parte, com volta ao original. Quem sabe a forma e o vocabulário lê uma cifra de choro como uma frase, e quem toca choro aprende harmonia sem perceber.