Teoria Musical

Análise

O blues de doze compassos, a forma que é uma harmonia

Doze compassos, três acordes, todos dominantes, e uma forma que se repete há um século; a análise de uma estrutura que não pertence a ninguém e que todo músico popular toca.

Blues de doze compassos em dó (esquema tradicional), forma tradicional, sem autor, início do século XX · domínio público (a forma é tradicional; o esquema de acordes abaixo é o padrão, sem melodia de nenhuma canção)

O blues de doze compassos é uma forma, e ao mesmo tempo é uma harmonia: quem diz "um blues em dó" já disse os acordes, a ordem e a duração de cada um. É a estrutura mais estável da música popular, tocada em todo o mundo sem partitura, e a análise dela é a análise de por que três acordes bastam.

O esquema tradicional em dó: doze compassos, um acorde por compasso, todos com sétima menor.

Três acordes, três frases

Os doze compassos se dividem em três frases de quatro. A primeira fica na tônica, com uma visita ao quarto grau no segundo compasso em muitas versões. A segunda vai ao quarto grau por dois compassos e volta à tônica por dois. A terceira vai à dominante, desce ao quarto grau e volta à tônica: é a cadência, esticada por quatro compassos.

Lidos por graus: I, IV, I, I; IV, IV, I, I; V, IV, I, V. Tônica, subdominante e dominante, as três funções, e nada mais. A forma é a frase da harmonia tonal repetida com uma proporção fixa.

Todos dominantes

O que faz o blues soar como blues, e não como uma cadência de hino, é que os três acordes têm sétima menor: dó com sétima, fá com sétima, sol com sétima. Na harmonia funcional só o quinto grau seria dominante; aqui a tônica e a subdominante também são, e por isso nenhum acorde repousa de verdade. O trítono da tônica, mi e si bemol, contradiz a escala de dó maior, e é essa contradição que dá ao gênero a sua aspereza.

Sobre esses acordes, a escala de blues de dó serve inteira, do primeiro ao último compasso: a terça menor da escala, mi bemol, contra a terça maior do acorde, mi, é a outra metade do som.

O ritmo harmônico e o turnaround

Um acorde por compasso, sempre, o que dá à forma a sua previsibilidade. A exceção é o fim: nos dois últimos compassos, a volta ao começo pede um turnaround, e a versão mais simples é a que o esquema mostra, dó e sol com sétima, a tônica e a dominante que devolvem a música ao primeiro compasso. Versões mais elaboradas põem quatro acordes nesses dois compassos, o I, VI, II, V ou os seus equivalentes com dominantes, e o ritmo harmônico acelera exatamente onde a teoria diz que acelera: antes da volta.

A forma como contrato

Doze compassos e três frases são um contrato entre quem toca: qualquer músico entra num blues em qualquer tonalidade sem ensaiar, porque a forma diz tudo. É por isso que o blues serve de base para o rock, para o jazz e para o improviso em geral: não é uma música, é um lugar onde músicas acontecem.

O que a forma ensina

Que uma forma pode ser uma harmonia; que tônica, subdominante e dominante bastam para doze compassos; que a sétima menor em todos os acordes é uma escolha de gênero, não um erro; e que o turnaround é o ritmo harmônico acelerando para a volta. Tudo o que os cursos de harmonia ensinam cabe nestes doze compassos, e quem os sabe de cor sabe a metade.